Introdução


Fábio Castro*

A Informática Médica é “um campo de rápido desenvolvimento científico que lida com armazenamento, recuperação e uso da informação, dados e conhecimento biomédicos para a resolução de problemas e tomada de decisão”.
Este Blog foi criado para discutir idéias sobre informática médica no PSF. As discussões sobre os problemas do PSF se concentram em tópicos como a falta de profissionais, capacitação dos profissionais e condições de trabalho. Geralmente não se questiona se a informática, ou especificamente a informática médica, poderia fazer algo para ajudar a aliviar estes problemas. A desinformação sobre o assunto é bem grande dificultando qualquer discussão sobre o assunto.

O Governo investe no PSF, ou Atenção Primária, por já estar comprovado ser o melhor modelo de saúde pública. A informatização interessaria aos gestores por também ser custo-efetivo. Vilaça (2009) cita que cada real investido em informatização da saúde, ou prontuário eletrônico (ou Registro Eletrônico de Saúde – RES), resulta na economia de três a cinco reais. Um bom exemplo de como um RES pode ser útil para evitar despesas seria no caso de um médico que pretende prescrever alguns exames e percebe que o paciente já tem exames recentes, ou em outro serviço, descritos no RES. Então seria economizado ao se evitar redundância de exames.

Existem sistemas mais sofisticados como os Sistemas de Apoio a Decisão (SAD). Com um SAD um médico não especialista, como no caso da maioira dos médicos trabalhando no PSF, pode acertar os diagnósticos com a mesma precisão dos especialistas. Um estudo britânico sobre SAD mostra que os receituários dos médicos que usam um SAD são em média mais de 4 dólares mais baratos (em medicação) comparado com o grupo controle (2). Na nossa realidade, um médico do PSF que realize mais de 5 mil consultas por ano estaria economizando mais de US$ 20 mil dólares por ano. O trabalho tem o viés da diferença do custo da medicação entre os dois países, mas por si só já compensam  os gastos para implantar um consultório informatizado. Os ganhos podem ser ainda maiores se for considerado os diagnósticos mais rápidos e corretos, menos consultas, tratamentos corretos etc.

São exemplos de tópicos que podem ser incluídos na Informática Médica que serão quase todos tratados neste blog:

  • Prontuário Eletrônico do Paciente – PEP (ou Registro Médico em Saúde)
  • S•Sistemas de Informações
  • Sistemas de Apoio a Decisão (Clínico)
  • Palmtop (PDA), principalmente para o ACS
  • Internet em Saúde
  • Padronização da Informação em Saúde

Como médico do PSF trabalhando em consultório informatizado há vários anos, com alguns programas, pude perceber que maravilha é o uso da informática no consultório, mas quando funciona. O problema é que na maioria das vezes não funciona e para piorar o médico tem pouca possibilidade para mudar os erros e até mesmo ter como discutir o assunto.

A informatização do consultório médico é um grande passo comparado com o processo manual, mas, assim como a implantação do PSF, está cheio de desconhecimento a respeito das suas possibilidades e funcionamento.

No site da Sociedade Brasileira de Informática em Saúde (http://www.sbis.org.br) pode-se encontrar artigos técnicos a respeito, mas ainda é difícil encontrar material especifico sobre o PSF que será o centro da atenção deste blog. Os artigos evitarão usar termos técnicos. O objetivo é ser bem prático com o objetivo de criar uma cultura sobre o assunto.

GANHANDO TEMPO

Para começar vou dar um exemplo bem prático de como um simples problema pode ser simplificado. (in)felizmente tive contato com muitos erros e situações que não funcionam para ter noção do que não deve ser feito.
A tela abaixo é de um RES (lembrem-se do Registro Eletrônico de Saúde) onde fica a função de atestado médico.São necessários até nove passos para pedir um atestado de um dia para o paciente que corresponde a maioria dos atestados.
atestado1

Primeiro é necessário abrir o menu (1) e escolher a opção “atestado médico” (2). Depois o médico tem que digitar a data (3) e colocar quantos dias de atestado (4). Tem que escolher se quer que o CID apareça ou não (5) e as vezes qual CID se forem várias doenças (provavelmente não vai querer que apareça o CID de AIDS).

Ao clicar no símbolo de imprimir (6) vai aparecer o “preview” que é a imagem do atestado para poder conferir. Se tudo estiver certo o médico clica novamente no símbolo de imprimir do preview(7) e clica no botão ok para imprimir (8). Depois ainda tem que anotar em algum lugar do prontuário que deu um dia de atestado para o paciente (9). Fazendo isso tudo manualmente é até mais rápido. Eu digito rápido e sou bem rápido ao clicar nos botões me condicionando fácil, mas não é o que acontece com a maioria dos profissionais.
O exemplo acima é um exemplo de como piorar o trabalho dos médicos. No exemplo abaixo seria uma forma de fazer isso tudo só que de forma bem mais rápida e simples. Basta apenas um clique na opção desejada, no caso um atestado de um dia mostrando o CID, e ele é impresso automaticamente.
atestado2
Diminuir o tempo da consulta otimizando os procedimentos burocráticos seria apenas uma das funções do RES. Com o RES é possível pensar em ir além e tentar resolver problemas que seria impossível sem a informatização. A planilha no desenho acima seria usada para mostrar as informações que apareceria no prontuário impresso. É necessário a opção de cancelar o procedimento caso o médico mude de idéia sobre a necessidade do atestado, ou querer fazer alguma mudança no atestado.

A planilha também pode ser útil para indicar se o paciente faz muito uso do atestado e qual o motivo. A paciente acima não parece que usa muito de artifícios. É notório a questão dos pacientes que se aproveitam para pegar atestados sem estar realmente doentes. As queixas são típicas e alguns dias são bem suspeitos como segunda-feira, sexta-feira ou véspera de feriados. Os médicos costuma ter uma conduta estereotipada de não fornecer atestado para ninguém prejudicando os que realmente precisam. Esta conduta pode ser indesejável para quem trabalha no PSF pois a relação médico-paciente fica prejudicada o que não ocorreria no caso de um serviço de pronto-atendimento.

Com a planilha acima é possível suspeitar dos aproveitadores, como os que vão a várias unidades de saúde em dias seguidos e anotar os que foram pegos se aproveitando. Um sistema mais sofisticado também poderia informar se a medicação prescrita foi retirada da farmácia (se também for informatizada). Um paciente que consulta e não pega medicação é um comportamento bem suspeito. O médico passa a ter certeza sobre quem está abusando e pode tomar medidas específicas sem prejudicar boa parte dos pacientes. Atualmente os paciente informam os outros sobre como proceder para conseguir atestado e poderão passar a evitar a conduta para não ser pego pelo sistema e não conseguir atestado quando realmente precisarem.

O prontuário citado acima foi feito certamente por especialistas que não tem muita visão dos problemas específicos enfrentados pelos médicos do PSF. Um especialista não precisa se preocupar com o tempo da consulta ou o número de pacientes esperando na fila. Um paciente interessado em conseguir um atestado não vai marcar consulta com um especialista.

Nos próximos artigos será mostrado como um bom RES pode permitir que um médico do PSF atenda rápido, muito mais pacientes (diminuindo a necessidade de médicos ou diminuindo em parte a dificuldade de recrutar profissionais), sem se estressar (o computador pode fazer a maior parte do trabalho burocrático e até do raciocínio clínico) e com uma melhor qualidade do atendimento. Imagino que com mais profissionais conscientizados sobre o assunto o exemplo acima seria evitado ou haveria mais profissionais para reclamar e conseguir mudanças.

* O Autor é o atual diretor de Informática Médica da Associação Mineira de Medicina de Família e Comunidade (2007-2009)

1 – Eugênio Vilaça. Reunião sobre Base Única do SUS – SES/MG (2009)

2 – Impact of an Evidence-Based Computerized Decision Support System on Primary Care Prescription Costs (http://www.annfammed.org/cgi/content/abstract/2/5/494)

12 Respostas to “Introdução”

  1. Leonardo Oliveira Says:

    Valeu Fábio!!!

    Bacana sua iniciativa!!!

    Espero contruibuir e usufruir do seu blog!

    Abraços!

    Leonardo

    PS>: vc sabe fazer programas para palmtop? Ou onde eu consigo aprender sobre isso ?

  2. Leonardo Savassi Says:

    Fábio,

    Excelente idéia.

    Estou fazendo linkagem cruzada a partir do Blog Medicina de Família, do qual eu e o colega Ricardo Alexandre somos organizadores.

    http://medicinadefamiliabr.blogspot.com/

    LSavassi

  3. Wanderlei Pacheco Salum Says:

    Boa idéia, Fábio.

    Lido com Informática desde 1984, quando levei para casa um ‘cérebro eletrônico’, pensando que ele seria a chave para muitas questões que eu tinha no meu próprio cérebro…
    Como vim a aprender, muito tempo depois, após muita leitura e quebrar a cabeça, passei a entender o mecanismo e, na verdade, para que ele serviria – algumas máquinas depois.
    O que eu observo – entre os meus pares – é que falta uma cultura de Informática: as pessoas não sabem responder os 5 W e os 2 H.
    Daí as informações serem pouco confiáveis. Foi só no final do ano passado que tive acesso ao Fênix, da SMSA. Definitivamente, as informações são muito pouco confiáveis.
    Porisso, louvo a sua iniciativa. Parabéns!
    Wanderlei

  4. Eno Says:

    Valeu, Fábio. Como coordenador no Núcleo RS do Telessaúde Brasil, teu blog já entrou nos meus favoritos.
    De onde és?
    Abração,
    Eno

  5. Guilherme Bahia Says:

    Fabio, ficou bacana! Agora é realmente importante que os gestores também acompanhem esse raciocinio e que em breve se consiga informatizar toda região metropolitana e do interior de MG. Basta apenas boa vontade e deixar a verba chegar sem as “burrocracias” conhecidas e os “emprestimos sem volta” de alguns gestores…..
    Parabens

  6. Suéllen Says:

    Fábio,
    Muito interessante sua idéia, já fiz comentários sobre sua idéia com a gestora de minha cidade para possível análise.
    Parabéns!

  7. Anderson Costa Says:

    Olá Fábio,
    Estou querendo preparar uma proposta de Projeto Final da faculdade, que aborda o tema de informatização dos PSF’s.
    Será que podemos trocar algumas idéias? Aguardo seu contato

  8. nilton pereira Says:

    gostaria de conhecer os passos sobre o desenvolvimento de software, solicito dos realizadores, se poderiam enviar artigo ou monografia ou projeto deste programa.

    Estou desenvolvento umprograma e gostaria de ter esse material

  9. O Especialista em Informática Médica « Informática Médica no PSF Says:

    […] meu primeiro post no Blog (clique aqui para ir para o post) eu citei um exemplo simples de como um profissional preparado pode fazer muita diferença. No caso […]

  10. Fábio Feltrin da Silveira Says:

    Sou desenvolvedor de software e estou precisando da opnião de vocês. Penso em desenvolver um sistema para gerenciamento de consultórios, com controle de agendamento, laudos, anamnese, entre outros, porém este sistema irá funcionar por meio da internet, ou seja, tudo online sem a necessidade de instala-lo no computador do consultório. Qual a opnião de vocês a respeito? Acham que teria aceitação por parte dos profissionais? Aguardo retorno por meio do meu e-mail (ofabio85@gmail.com) e desde já agradeço a compreensão.

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