Gestão do Conhecimento


Fábio Castro

Um novo psiquiatra que apóia a região onde trabalho, apoiando várias equipes do PSF, criou uma lista de e-mail para trocar informações entre os profissionais sobre o acompanhamento dos pacientes. A gestão do Distrito ficou impressionada com a idéia. O que o psiquiatra estava fazendo era usar uma ferramenta simples de Gestão do Conhecimento (KM – Knowledge Management), chamado de Groupware (e-mail, Chat, wiki etc), mostrando o quanto o assunto é desconhecido.

A medicina sempre favoreceu os profissionais com boa memória, mas com a expansão do conhecimento médico uma boa memória cerebral deixou de ser uma vantagem. Ter capacidade de acessar o conhecimento rapidamente de outras fontes passou a ter um papel mais importante. As especialidades e sub-especialidades não são mais suficientes para garantir que um profissional tenha total conhecimento da sua área de atuação. Tirar dúvidas com outros profissionais do trabalho é um hábito com um entre os médicos. Com a Tecnologia de Informação é possível pensar em novos caminhos como no exemplo acima.

A Gestão do Conhecimento (vou usar a sigla KM) já é usada por outros empresas privadas. KM na saúde pode ser considerado como a confluência das técnicas e metodologias formais para facilitar a criação, identificação, aquisição, desenvolvimento, preservação, disseminação e utilização de várias facetas dos cuidados em saúde.

Considerem os dados abaixo:

– Existem cerca de 20 mil jornais médicos no mundo. – um professor de medicina gasta um dia por semana no seu campo para pesquisas e estudos.

– Na França existem sete mil precisões de drogas e os médicos podem prescrever todas elas (está familiarizado com todos?). Também existem 800 exames, mais de 1000 testes e imagem e 1.500 intervenções cirúrgicas.

– Outra fonte cita que existem 10 mil doenças e síndromes, três mil drogas, 1.100 testes de laboratório e 44.000 artigos publicados por ano. Na medicina interna são dois milhões de artigos disponíveis.

– As decisões dos médicos custam 3/4 dos gastos com saúde e dependem de KM.

– As fontes de informações são muitas, mas geralmente falham em fornecer respostas onde e quando são necessárias. O resultado é até 2/3 dos problemas na prática clínica não serem resolvidos. Para piorar o conhecimento pode estar desorganizado e velho.

– Nos EUA, em 2000, ocorreram 100 mil mortos por erro médico com um custou de US$ 37 bilhões sendo que 70% dos erros podem ser prevenidos ou evitados. – Os médicos usam dois milhões de peças de informações para gerenciar os pacientes.

– 1/3 do tempo dos médicos é usado para gravar e combinar informações e um terço dos custos de saúde são gasto com comunicação entre pessoal  médico.

– Estimasse que conhecimento médico cresça quatro vezes durante vida profissional do médico resultando na necessidade de meios para praticar medicina com qualidade com atualização constante. Outra consequência é a pressão para a especialização com o médico conhecendo cada vez mais sobre menos coisas.

O crescimento do conhecimento biomédico leva ao fato de ser impossível conhecer a área sem algum tipo de apoio e o KM é parte da resposta. O objetivo é reagrupar, incorporar e conectar o conhecimento médico para atingir decisões presente e futuro.

Exemplo Prático

O site do Clinical Information Access Program (CIAP) (http://www.ciap.health.nsw.gov.au/) australiano foi criado para os profissionais de saúde do país terem acesso a Medicina Baseada em Evidência. O site permite acessar informações sobre drogas, exames laboratoriais, linhas guias, livros de medicina, revistas especializadas, medicina baseada em evidencias etc.

O problema desse tipo de site é se preocupar mais com a confiabilidade que a usabilidade. No meu dia a dia fico sempre recebendo manuais e informes sobre problemas específicos. Fica tudo empilhado e quando preciso fica difícil de descobrir onde está a informação correta. Em uma ocasião me mandaram um diretório com arquivos para imprimir as notificações de Doenças de Notificação Obrigatória. O problema é que o nome dos arquivos eram siglas e a maioria difícil de descobrir o que tem dentro só pelo nome do arquivo. O outro problema era saber quantas vias imprimir, para onde mandar, informações ao paciente, quem e como contatar, etc. Poderiam ter usado a intranet já existente para organizar tudo. Então a usabilidade de um site nacional fica limitada por não poder entrar em tantos detalhes.

Um exemplo prático para resolver o problema seria dividir o assunto por capítulos relacionados com especialidades (dermatologia, cardiologia, infectologia etc). No caso de cada doença estariam os temas como linhas guias, informativos, etc, e no caso da infectologia o arquivos para imprimir e orientações.

A imagem abaixo é de um índice onde foi clicado no capitulo de infectologia, escolhido o menu de Tétano e no fim dos tópicos ficaria a opção “outros” onde estaria o link para abrir o arquivo da notificação para imprimir. Em poucos cliques do mouse eu teria a informação desejada.

Gestão do Conhecimento

Outro problema são os cartazes com informações pregados na parede. A intranet seria outro lugar para guardar as informações e até mais prático pois a distância em si já dificulta a visualização.

Os exemplos acima foram bem práticos e simples. Os software de KM pode ser do tipo baseado em biblioteca, Sistema de Informação Clínica, híbridos ou linhas guias informatizadas. Para ser efetivo deve estar integrados no Prontuário Eletrônico o que raramente acontece sendo geralmente do tipo “stand alone” como os exemplos citados.

No mercado internacional existem vários exemplos de software de KM médicos de vários tipos:

– Conteúdo clínico baseado em evidência (sintetizado) :  UP-to-Date, PDxMD, DiseaseDex.

– E-Textbooks : MD Consult.

– E-Journal : Roundsman.

– Formulário médico : WizOrder, MicroMedez, First DB.

– Banco de dados bibliográfico : PubMed, Medline Button, Ovid.

– Linhas Guias : PKC, Enigma.

– Diagnostico diferencial com inteligência artificial : DxPlain, QMR, MedWeaver.

– Educação do Paciente : Healthwise, KBIRs.

– Lembretes automatizados (baseado em regras) : Arden, IMKI.

O PRODIGY é um CDSS usado pelos médicos de família (General Practitioner) britânicos usando o modelo de linhas guias. Agora está sendo chamado de Clinical Knowledge Summaries:  http://www.cks.nhs.uk/clinical_topics/by_clinical_specialty/eyes

O Clinical Knowledge Summaries está disponível para acesso pelos pacientes sem necessitar de senha: http://www.cks.nhs.uk/patient_information_leaflet/anaphylaxis#-362116 ( o conteúdo médico só é possível visualizar com senha).

Outros países também têm bancos de dados de linha guias clínicas relacionados por condições clínicas: como o National GuidelineClearinghouse (www.guideline.gov) e o New Zealand Guidelines Group (www.nzgg.org.nz).

No Brasil uma iniciativa de KM é o Grupo de Estudos em Saúde da Família (http://www.smmfc.org.br/gesf/index.htm) que inclui ferramentas de Groupware com fórum de discussão: http://groups.google.com.br/group/acolhimento

Bibliografia:

Handbook of Research on Informatics in Healthcare And Biomedicine

Healthcare Information Systems and Informatics: Research and Practices

MEDINFO 2007 – Proceedings of the 12th World Congress on Health (Medical) Informatics

Medical Informatics: Concepts, Methodologies, Tools, and Applications

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