A Gestão do Conhecimento – Segunda Parte


Fábio Castro

A área de saúde faz uso intensivo do conhecimento, com processamento intenso de dados, com os dados vindo do Prontuário Eletrônico, testes clínicos, administração e geração de conhecimento. Os serviços de saúde costumam desconhecer sua base de conhecimento adquirida e o capital de conhecimento sempre é perdido quando os profissionais saem do serviço, devido a rotatividade, atrito, documentação inapropriada e medidas de economia.

A melhora do cuidado do paciente é considerada como sendo proporcional a qualidade dos meios intelectuais de um serviço de saúde. A Gestão do Conhecimento (Knowledge Management – KM) preconiza que a experiência e a expertise dos profissionais devem ser capturadas e refletidas em estatísticas, políticas de saúde e em práticas em todos os níveis.

O objetivo do KM é dar a organização a capacidade de garimpar seus próprios meios de conhecimento, como criar ferramentas com a capacidade de busca centralizada, indexação automatizada, análise de dados e características customizadas integradas em um dashboard. Pode ser na forma de um melhor o acesso a informação e conhecimento em todos os níveis, para atingir custo-eficiência e transformar todos os membros da equipe de saúde em uma rede de conhecimento/comunidade de prática. Na área de saúde o KM é a capacidade de traduzir a pesquisas em práticas para melhorar os cuidados de saúde (Best Practice) e criar novas idéias (innovation).

Conceitos Teóricos de KM

Na área de saúde temos a presença de conhecimento explícito e tácito relacionadas com a acessibilidade do conhecimento. O objetivo final de todo projeto KM é transformar conhecimento tácito em explícito para permitir sua disseminação efetiva.

. Conhecimento tácito (know how) – é o conhecimento “escrito” na mente humana e que não pode ser expresso como a experiência ganha no trabalho. O conhecimento tácito precisa ser capturado e armazenado. Os indivíduos têm que distribuir o conhecimento com os membros do grupo. Os membros validam o conhecimento cru e depois de validados se tornam explícitos ao serem documentados. O conhecimento tácito é geralmente encontrado com os especialistas experientes. É raro distribuir este conhecimento sendo geralmente em conferências.

. Conhecimento implícito – Pode ser acessado com discussões, perguntas, sendo ainda informal. Precisa ser localizado e depois comunicado.

. Conhecimento Explícito (know that) – é o conhecimento facilmente disponível em textos informativos e fáceis de entender como jornais médicos, artigos científicos e publicações. Pode ser interno ou externo. O interno são os relevantes para a prática da medicina como as revistas médicas. Os externos são publicações legais, governamentais e outras não ligadas diretamente ao tratamento dos pacientes, mas a prática geral da medicina.

Os KM considera que o conhecimento pode ser hierarquizado:

– Dados são documentos, sem organização ou processamento (fatos, imagem e sons)

– Informação são, dados selecionados, formatados, filtrados, sumarizados e com interpretação

– Conhecimento são informações são informações selecionadas com interpretação. Pode ser instinto, idéias, regras e procedimentos que guiam as ações e decisões e são contexto dependente. O contexto do conhecimento é importante como um filtro. Fazendo uma busca no Google com as palavras “mostre-me todas as informações sobre os jaguar” vão aparecer informações sobre o carro esportivo ou pode ser um biólogo estudando sobre felinos. Um médico fazendo uma busca sobre uma doença tem interesses bem diferente de um paciente fazendo a mesma busca.

O KM tem quatro estágios:

– Identificação e captura do conhecimento (competências críticas, tipos de conhecimento e indivíduos com a expertise necessária)

– Distribuição do conhecimento

– Aplicação – apoiando decisão, ações e solução de problemas

– No fim pode criar mais conhecimento e o ciclo se fecha.

Criação do Conhecimento

A criação do conhecimento pode ser na descoberta de melhores processos de trabalho, avanços em terapias, melhor relação com o paciente e melhorar as potencialidades de trabalho. As técnicas de data mining podem ser usadas para descobrir padrões, tendências e associações. As técnicas de visualização de informação são outro exemplo.

A criação de conhecimento pode ser controlada ou livre. Quando controlado, por ter sido solicitado, tem um individuo responsável pela inspeção da coleta em várias áreas pois o conhecimento pode estar disponível em vários departamento incluindo farmácia, enfermagem, etc.

Na forma livre todos participam pois podem ser uma fonte de conhecimento e não existe um local de controle. Uma variação é um grupo ficar responsável pela criação e distribuição como, por exemplo, um grupo de cirurgiões pesquisando novos conhecimentos na prática cirúrgica.

A criação e transformação do conhecimento podem ser feitas por quatro métodos:

– Socialização – transforma conhecimento tácito em tácito (duas pessoas conversando)

– Externalização – Converter conhecimento tácito em explícito (escrevendo um artigo técnico)

– Combinação – Converter conhecimento explícito em explícito (combinar conhecimento)

– Internalização – converter conhecimento explícito em tácito (ganhar experiência ou ler um livro)

As empresas de menos sucesso tem uma mentalidade “top down” empurrando conhecimento para onde é necessário. As empresas com mais sucesso recompensam os trabalhadores para procurar, distribuidor e criar conhecimento. Se não me engano no governo americano as recompensas por novas idéias variam de 200 a 20 mil dólares. Cerca 80% das idéias não são aproveitadas, mas o resultado final é uma economia significativa.

Captura e Armazenamento

Após a criação do conhecimento é necessário seu armazenado para poder ser disseminado e transferido. O armazenamento pode ser feito na mente humana, organização, documentos e computadores. Na mente humana é difícil de acessar. Na organizacional fica dispersa e distribuída. Os documentos podem ser desde textos livres a textos bem estruturados como tabelas e gráficos. No computador pode ser formalizado, distribuído e bem estruturado e organizado.

As duas estratégias usadas para captura e armazenamento no computador é a codificação e a personalização. A codificação é baseada no princípio que conhecimento pode ser codificado, armazenado e reutilizado. A codificação permite sua busca e recuperação sem ter que contatar uma pessoa responsável. A personalização precisa da criação de uma rede ou comunidade de pessoas com conhecimento em uma área. Pode ser por e-mail, telefone ou videoconferência. No meio médico é enfatizado a codificação. O tratamento de Pneumonia é o mesmo em qualquer lugar do mundo. A codificação facilita a capturar conhecimento desses tratamentos.

Outra questão é a digitalização. O conhecimento em forma de papel e gráficos é de difícil captura. Ficam disperso nas organizações sem ordem ou estrutura. Ficam gravados em formatos diferentes com difícil indexação. O Prontuário Eletrônico facilita traduzir a informação do papel para o formato computadorizado usando também o formato de imagem e vídeo o que facilita a captura e armazenamento em relação ao papel.

O armazenamento do conhecimento digitalizado é feito na forma centralizada em uma “data warehouses”, geralmente na web (internet ou intranet). Pode ser repositórios, lessons learned, best practices e assim por diante. Deve ser evitado a saturação de informação. A grande quantidade de dados armazenados levou a criação do campo de “information retrieval” (IR) baseado na indexação.

Depois de armazenado, preferencialmente em uma central, o conhecimento tem que ser disseminado na organização. A segurança começa a fazer parte do processo. Os dados do Prontuário Eletrônico do Paciente não podem ser disponibilizados para todos, ou para pesquisa.

As informações podem estar disponíveis em vários formatos de visualização como gráfico e banco de dados. A maioria é baseada na web. Agentes de inteligência podem customizar a visualização evitando a saturação de informação. Os sistemas especialistas/sistemas de apoio a decisão podem ser usados para codificar a expertise/conhecimento.

Aplicação e Exploração

A aplicação do conhecimento é o último e mais importante estágio do KM. Apenas quando os novos conhecimentos são usados no processo de decisão clinica é que o conhecimento armazenado tem valor. As inovações têm que ser aprendidas e aplicadas.

A Medicina Baseada em Evidências se preocupa mais com o conteúdo e não com a aplicação enquanto os aplicativos de informática médica são os meios para aplicar o conhecimento na prática. Os Sistemas de Apoio a Decisão (SAD) (Clinical Decision Support System) e a Telemedicina são bons exemplos de aplicativos.

Os SAD não costumam ter muito sucesso por serem programas não integrados ao prontuário eletrônico. A tarefa extra de entrada de dados e até mesmo ter que ir para um local diferente onde o sistema está instalado é um desestimulo a sua utilização. Os SAD integrados ao Prontuário Eletrônico são exemplos de sucesso como o Prodigy usado pelos GPs britânicos. O “gatilho” para a sua utilização é a entrada do código da doença do paciente. Automaticamente fica disponibilizada uma lista de conselhos médicos e recomendação terapêutica baseadas em evidências para aquela doença. O médico pode ou não usar as recomendações.

A Telemedicina é outra ferramenta para melhorar a distribuição e até mesmo a criação de conhecimento. Outras tecnologias que podem ser aplicadas na fase de aplicação do conhecimento são Groupware, Intranet, ferramentas colaborativas (fóruns de discussão, videoconferências), Portals e Taxonomias. Outras ferramentas de KM que podem ser usada na aplicação são o datamining (SQL), DICOM, mapas de conhecimento (mostra conhecimento graficamente), agentes de inteligência, web browser, data warehouses, CPOE (entrada de dados estruturados) e E-Learning.

A tecnologia é reconhecida como apenas parte da solução dos problemas médicos. Um autor cita que os investimentos em tecnologia deve ser um terço do total dos gastos (ou esforço) com a Gestão do Conhecimento ou corre-se o risco de se perder no caminho.

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