Perguntas que um Prontuário Eletrônico para o PSF Tem Que Responder


Fábio Castro

No  IV Congresso Mineiro de Medicina de Família e Comunidade, em 2009, na mesa sobre Registro Eletrônico, o responsável pelo Prontuário Eletrônico da Secretaria Estadual fez a seguintes perguntas sobre o objetivo do Prontuário Eletrônico:

1 – Como transformar o serviço em algo útil como é hoje um caixa eletrônico bancário?

2 – Que funcionalidades deveríamos exigir para que o serviço se tornasse vantajoso, ágil, eficiente e agradável?

3 – Que funcionalidades deveríamos evitar para não tornar o serviço burocrático, lento e ineficiente?

4 – Como poderíamos tornar o projeto ousado, de vanguarda e com isso melhorar a saúde da população?

Esse é o ponto de vista do pessoal da Tecnologia de Informação (TI). Do ponto de vista da Informática Médica as perguntas seriam diferentes. Os temas do Blog tentam responder a maioria das perguntas.

Diferente de outras áreas a Medicina é vista como complexa e não é possível simplificar processos como acontece nos caixas eletrônicos bancários (e-operations – automatizar processos administrativos). O treinamento intensivo é parte dos requisitos para o sucesso na implantação de um Prontuário Eletrônico.

Em um artigo sobre a resistência dos médicos a usar o Prontuário Eletrônico (Why Doctors Hate Electronic Medical Records), o autor argumenta que os médicos adoram tecnologia, mas não gostam é de perder tempo que é um efeito colateral dos Prontuários Eletrônicos, ou pelo menos da maioria por serem mal feitos.

Em uma conversa com médicos de um pronto-socorro aqui de Minas, relataram que o Prontuário Eletrônico implantado até que era bom, mas por ter vindo de Portugal estava bem fora da nossa realidade e com muita coisa ainda por mudar, com telas demais. Essa é a opinião sobre uma empresa que pretende criar o melhor Prontuário Eletrônico do mundo.

Como médico da ponta minhas perguntas seriam diferentes estando mais relacionada com os problemas do dia a dia e que são percebidas pela vivência:

1 – As equipes do PSF têm uma população bem acima da média mundial. A demanda é sufocante. Então como o Prontuário Eletrônico poderia ser usado para diminuir/atender/controlar a demanda? É um problema bem frequente nas equipes do PSF. Para mim é a prioridade do dia a dia. Com um prontuário lento o problema irá piorar ainda mais.

2 – A maioria dos profissionais que ingressam no PSF não tem muita noção de Atenção Primária ou não teve residência em Medicina de Família e Comunidade. Então como usar o Prontuário Eletrônico para resolver o problema de falta de qualificação profissional? Será que o Prontuário Eletrônico poderia “canalizar” os profissionais a trabalhar adequadamente até mesmo sem saber?

3 – Os indicadores disponíveis atualmente não servem para saber se o meu trabalho está bem feito ou como posso melhorar. Um Prontuário Eletrônico poderia me ajudar nesta tarefa e ao mesmo tempo ajudar a realizar o trabalho corretamente desde o inicio? 

4 – O trabalho no PSF é feito em equipe. O Prontuário Eletrônico considera o trabalho de todos os membros de forma integrada? 

O Prontuário Eletrônico não é a solução para tudo, mas pode ser parte da solução o que já seria um grande passo.

Outras questões relacionadas com o PSF vão bem além do dia a dia dos profissionais:

1 – Como usar o Prontuário Eletrônico para resolver a falta de mão de obra em geral? Um profissional que chega para trabalhar no seu primeiro dia e encontra um serviço organizado então seria um primeiro passo para continuar a carreira no SUS. Trabalhando em um local desorganizado a impressão que já tive é que é hora de ir embora pois não tem futuro. 

2 – Fixar médico no interior é outro problema. Os profissionais vão trabalhar em locais com poucos recursos, sem experiência profissional adequada, sem acesso até a outros profissionais para pedir ajuda. O Prontuário Eletrônico pode responder pelo menos em parte do problema com apoio de outras ferramentas como os Sistemas de Apoio a Decisão e a Telemedicina.

3 – A rotatividade dos profissionais é outra questão. Está relacionado com a questão anterior de médicos que entram no PSF como “bico”. O Prontuário Eletrônico deve ser um meio de fazer os profissionais gostarem da profissão e continuarem. Um software mal feito vai ser mais um motivo para se afastarem.

4 – Diminuir custos é o que interessa para o Gestor. No Prontuário Eletrônico que eu uso apenas o módulo da Farmácia permitiu uma economia de cerca de 40% na compra de medicações pagando o programa várias vezes. Como efeito colateral temos a capacidade de indicar a quantidade correta de cada medicação a ser comprada sendo que antes era totalmente empírico. A ideologia da Informática Médica é voltada para o custo-benefício e os Gestores deveriam investir pesado no assunto. 

A profissão do Médico de Família e Comunidade também poderia ser valorizada pela Informática Médica. O campo de trabalho atual se resume as equipes do PSF e ao ensino. A Informática Médica aplicada no PSF pode abrir portas com os profissionais trabalhando também em outros projetos como a Telemedicina, Sistemas de Apoio a Decisão, Gestão e Pesquisa. Toda profissão tem um grupo de 3-5% de profissionais que se destacam e a Informática Médica seria um meio de criar oportunidades.

2 Respostas to “Perguntas que um Prontuário Eletrônico para o PSF Tem Que Responder”

  1. Leandra Says:

    vou dar minha opinião sobre os questionamentos:
    Problemas do dia a dia:
    1- Não gosto do protocolo de manchester para urgência, mas acho que um protocolo nesse estilo no software seria útil e bemvindo para triar a demanda excessiva. Quanto a lentidão, a produtividade sofre uma queda após a implementação de prontuário eletrônico do paciente e logo volta ao normal. O contato do dia a dia leva a incorporação da tecnologia, como no caso do celular.
    2- Acho que telas de programas específicos, tipo “diabetes” “hipertensão” etc, ajudaria imensamente os médicos recem chegados.
    3- Sem dúvida que com a possibilidade de recuperação e comparação de dados isso poderia ser de valor inestimável a longo prazo!!
    4- sim, com a tecnologia cloud computing sendo possível o compartilhamento de dados inclusive o acesso ao atendimento na especialidade! Já imaginou como seria fantástico?

    Fora do dia a dia:
    1- Sem dúvida um PEP organiza e melhora e muito o aspecto do atendimento e do local de trabalho!
    2- Telemedicina é um recurso extraordinário e pouco utilizado ainda, o que é uma pena. As listas de discussão nas especilidades hoje em dia facilitam muito a discussão de casos online com oe melhores especilistas do país.
    3- Eu acho que nesse quesito falta formação. Residência em Medicina Comunitária ainda é deficiente. Falta apoio governamental nesse aspecto, pois o Estado é o maior interessado e não investe.
    4- O fato é que a tecnologia da informação é vista como uma ferramenta de redução de custos assim como de melhoria da qualidade da assistência e da segurança do paciente na saúde. Só os gestores ainda não pensaram como a iniciativa privada.


    em tempo: adoro seu blog!!

  2. Alexandre Says:

    Fabio,
    este artigo indicado por vc “Why doctors hate EMR” é ótimo. Valeu pela dica! Seu blog continua muito bom. Parabéns.

    Alexandre Moura

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