Controle de Gastos e Desperdícios


Fábio Castro

Nos Estados Unidos, segundo o Healthcare Financing Administration, se gasta anualmente cerca de US$ 1 trilhão de dólares no mercado de saúde, com a previsão de passar para mais de US$ 2 trilhões em 2007. Outras fontes estimam ainda que 25 a 30% desse valor é desperdiçado devido a ineficiências e redundâncias, bem como a realização de procedimentos médicos desnecessários  (1).

Estimam-se as perdas no sistema de saúde como um todo entre 35% e 60%, seja por perda da informação repetição de trabalho, ineficiência do atendimento e redundância (2).

O PEP tende a reduzir fraudes. Como exemplo, podemos citar o caso clássico do paciente que “empresta” seu cartão de atendimento a um amigo ou parente, algumas vezes com a anuência do profissional de saúde. A existência do PEP, tende a inibir tal procedimento pois é difícil imaginar que qualquer paciente aceite ter em seu prontuário o registro da doença de outros, assim como dificilmente o profissional de saúde aceitaria tal atitude.(2)

Gastos Com a Informatização

As tecnologias de informação em saúde (Health Information Technology – HIT) são consideradas como tendo um grande potencial para diminuir os custos e melhorar a eficiência, qualidade e segurança dos serviços de saúde. O objetivo é repetir o sucesso da aplicação em outros setores como a indústria e os bancos.

A maior barreira da informatização de um serviço médico é a visão do retorno do investimento pois os gestores tendem a enxergar os gastos com a informatização apenas como custo e não como investimento. Outra grande barreira é a resistência dos médicos em usar o prontuário eletrônico.

Calcular o custo da informatização de um serviço de saúde é bem complicado pois a avaliação deve ser feita para os pacientes, médicos, a instituição e toda a sociedade. Os benefícios podem ser de curto prazo e longo prazo sendo que é mais difícil perceber os custos a longo prazo. Existem os benefícios econômicos e os não econômicos que devem ser estimados e comparados. Os custos econômicos incluem o de custo de aquisição, implementação, operação, e até pesquisa e desenvolvimento.

Um estudo da RAND cita um caso de hospital que implantou um sistema de alerta sobre vacina pneumocócica no Prontuário Eletrônico. Ocorreu um aumentou em 8% nos pedidos da vacina, mas não melhorou em nada em termos de ganhos financeiros para o hospital pois a aplicação era realizada em outro serviço só resultando em custos adicionais para implantar. Porém o ganho oferecido existia como  uma boa qualidade do atendimento que pode reverter em mais ganhos (3).

Os médicos conhecem os ganhos com a informática através da facilidade de trocas de informações na internet e pesquisa de artigos científicos. Muitos devem se lembrar da dificuldade de encontrar um artigo científico em uma pesquisa bibliográfica manual enquanto hoje o problema é o excesso de informações. O tempo ganho para obter os dados ou evitar o deslocamento para o local da pesquisa é de fácil percepção para quem já passou por isso. Uma pesquisa que poderia demorar várias horas agora pode estar disponível em segundos. Provavelmente os ganhos econômicos da implantação de um Prontuário Eletrônico não serão na mesma escala.

Os gastos com a informatização na saúde deve ser menor que a economia gerada com o seu uso. Na Europa os países gastam entre 2 a 3% do orçamento em saúde na informatização dos serviços de saúde. Nos EUA os estudos citam 4 a 10%. Nos países pobres varia de 0,2 a 0,5% e pode gerar um ciclo vicioso de ineficiência.
Os Bancos gastam 5 a 6% do orçamento em computação. O retorno vem na forma da facilidade do acesso para o usuário (pela internet ou caixa eletrônico) e a diminuição do gasto com pessoal (1). Comparado com os serviços bancários, transporte e hotelaria, o ambiente de saúde é considerado mais complexo e emocionalmente carregado, sendo mais difícil de informatizar.

O custo de um prontuário eletrônica varia de US$ 2 a 6 milhões nos EUA para um hospital de tamanho médio. O custo de manutenção anual é cerca de 10% do preço de compra ou aluguel. Um Prontuário Eletrônico para um serviço de ambulatório custa de US$ 100 mil a US$ 10 milhões, demorando de 1 a 7 anos para ser desenvolvido (6). O custo inclui o gasto com o treinamento e a perda de produtividade na transição do papel para o eletrônico.

A estimativa do custo de informatizar a saúde nos EUA custaria US$ 156 bilhões para implantação. Para operação custaria mais US$ 48 bilhões por ano sendo 2/3 para operação e 1/3 para interoperabilidade. Estes US$ 156 bilhões ainda representa 2% dos gastos em 5 anos em saúde. A estimativa é que economizaria US$ 77,8 bilhões por ano em comunicações ineficientes. Um estudo da RAND cita uma economia de US$ 81 bilhões por ano, evitando eventos de saúde adversos, e melhor a qualidade do cuidado com o uso de um Prontuário Eletrônico. Os hospitais até que não iriam gostar por perder ganhos pois o paciente ficaria menos tempo internado, mas é o ideal para o SUS (4).

A Secretaria de Saúde do Estado de Minas Gerais planejava gastar cerca de R$ 200 milhões para informatizar 4 mil equipes do PSF e dezenas de hospitais em MG. O valor inclui gastos com treinamento, manutenção e hardware. O projeto foi cancelado.

Diminuição dos Custos com o Prontuário Eletrônico

Muito do entusiasmo em relação ao Prontuário Eletrônico é a possibilidade de redução dos custos e melhorar a qualidade do atendimento, com pacientes e profissionais mais bem informados, eliminando testes duplicados, melhorar coordenação do tratamento. A melhorar da produtividade é um dos objetivos do Prontuário Eletrônico, ao mesmo tempo em que diminui os custos administrativos associados com a saúde. Estudos mostram que um Prontuário Eletrônico pode diminuir o custo em US$ 600 dólares por paciente devido a uma internação mais curta, além de melhorar a qualidade do cuidado e diminuir os erros médicos. Já foi estimado que 11% dos exames laboratoriais em um hospital foram pedidos de forma duplicada pois os dados não estavam disponíveis para o médico durante a consulta (6).

Apenas 17% dos médicos americanos estavam usando Prontuário Eletrônico em 2008. Um dos motivos é o custo pois informatizar um consultório por lá custava US$ 140 mil mais US$ 100 mil por ano, sem considerar a perda de produtividade no primeira ano quando estão aprendendo a usar as novas tecnologias. Mesmo assim costuma ser vantajoso com a diminuição de pessoal principalmente na parte administrativa. O investimento é considerado de alto risco. O investimento de US$ 50 bilhões proposto pelo Presidente Obama está priorizando serviços com 10 ou menos médicos que ainda são a maioria dos serviços no país (8).

Evidências de viabilidade financeira do Prontuário Eletrônico são limitadas resultando em uma evidência fraca. Os estudos são mais analíticos com dados empíricos limitados. Alguns estudos citam custos adicionais em sistemas automatizados (33 centavos por atendimento), mas que diminui o tempo de internação em 1 dia. Os resultados eram bem contexto específico, sem poder criar metanálises. Os estudos não eram homogêneos ou similares o suficiente pra serem considerados juntos (3).

O Prontuário Eletrônico pode ajudar a diminui os custos de três formas. Primeiro melhora os exames repetidos devido a indisponibilidade. Os custos administrativos são diminuídos com atividades de rotina sendo automatizadas. Terceiro a produtividade dos médicos pode melhorar diminuindo tempo para encontrar dados; diminuir a repetição na entrada de dados; diminuir tempo para revisar dados (6).

Um estuda da RAND cita um Sistema de Apoio a Decisão do Hospital Geral Partners/Massachusetts usa lembretes clínicos para cinco processos em Diabetes (teste de colesterol, hemoglobina glicada, exame anual de fundoscopia, uso de ECA e Estatinas) e quatro para Doença da Artéria Coronariana (testes LDL, uso de Aspirina, uso de Beta Bloqueadores e Estatina). Os lembretes abriam toda vez que o médico abre o Prontuário Eletrônico deste paciente. O uso foi comparado com um grupo controle e a estatística mostrou que foram realizados mais testes diagnósticos, mais precisos e mais uso de AAS e Estatina para DAC. Os outros não deferiram. Outro estudo sobre um sistema de gerenciamento integrado de diabetes estimou a economia de US$ 10,7 bilhões com o uso de um Sistema de Apoio a Decisão e US$ 14,5 bilhões com um sistema de registro eletrônico. São os dois sistemas de Tecnologia de Informação que mais economiza. No cuidado seria o aumento da cobertura de retinopatia de 14,2% para 61,5% e o exame do pé de 45% para 80% (3).

A Kaiser-Permanent, de atenção primária nos EUA, usa um sistema de prontuário eletrônico da IBM enquanto Kaiser Northwest usa o EpicCure. Ambos são prontuário eletrônico multifuncionais com documentação integrada, reporta resultados, prescrição eletrônica e usam vários Sistemas de Apoio a Decisão. O padrão era diminuir o uso do ambulatorial pelos pacientes, ou 8% após 4 anos de implementação. Foi aumentado os contatos por telefone com os pacientes de 1.26 contatos por pessoa por ano para 2.09 após 2 anos. O uso dos serviços de radiologia diminuiu 14% inicialmente depois estabilizou em 4% a menos que antes. Os exames laboratoriais seguiu o mesmo padrão. O aconselhamento para parar de fumar, realizar preventivo e exame de fundoscopia para Diabetes não mudou após implementação (3).

Um estudo brasileiro cita que a produtividade do ambulatório aumentou cerca de 35% em São Paulo (Software Zilics). A percepção do paciente sobre a qualidade do sistema melhorou. A espera nas filas para especialistas diminuiu de três para um mês (5).

A introdução de um prontuário eletrônico na Prefeitura de Belo Horizonte considerou a redução de custos provenientes da racionalização de recursos como a racionalização dos custos de medicamentos e exames. “Anteriormente se um usuário fazia um exame, exame de sangue que fosse, ou um raio X, ele fazia esse exame e perdia o resultado. Então ele voltava daí a uma semana no médico, e o médico precisava ver, e não tinha o  resultado, então ele tinha que fazer o exame de novo. (…) Uma outra coisa, as pessoas tinham uma prática muito comum, e tem ainda, de estocar medicamento em casa, porque como pode faltar, elas vão numa unidade, vão a outra, arrumam uma receita de um médico particular e vai na outra e pega e estoca em casa. (…) isso fazia com que algumas vezes o recurso que você tem que já não é tão grande, ficasse mais limitado. Porque se a pessoa pega de quatro pessoas, outras três ficam sem. Então a gente percebe que tem uma racionalização de recursos. (…) (7).

Bibliografia:

1 – Desenvolvimento e Avaliação Tecnológica de um Sistema de Prontuário Eletrônico do Paciente, Baseado nos Paradigmas da World Wide Web e da Engenharia de Software – Claudio Giulliano Alves da Costa.

2 – O prontuário eletrônico do paciente na assistência, informação e conhecimento médico / Editores Eduardo Massad, Heimar de Fátima Marin, Raymundo Soares de Azevedo neto ; colaboradores Antonio Carlos Onofre Lira . – São Paulo : H. de F. Marin, 2003.

3 – Costs and benefits of health information technology: an updated systematic review – Paul G Shekelle, Caroline L Goldzweig, Southern California Evidence-based Practice Centre, RAND Corporation, 2009.

4 – MEDINFO 2009 – Chapter 1.12 – Information Technology (IT) and the Healthcare Industry: A SWOT Analysis.

5 – Medinfo 2007 – Software Engineering Principles Applied to Large Healthcare Information Systems. A Case Report – p63.

6 – The Computer-based Patient Record  – Dr. Jan H. van Bemmel Astrid M. van Ginneken and Johan van der Lei.

7 – O PRONTUÁRIO ELETRÔNICO DO PACIENTE COMO FERRAMENTA DE GESTÃO DO CONHECIMENTO NA ÁREA DE SAÚDE: Um estudo de caso na Secretaria Municipal de Saúde de
Belo Horizonte.

8 – Why Doctors Aren’t Embracing Electronic Medical Records. By David P. Hamilton | December 31st, 2008.

Uma resposta to “Controle de Gastos e Desperdícios”

  1. saudedireta Says:

    O Portal Saude Direta (www.saudedireta.com.br) é uma plataforma de trabalho medico, com Prontuario Eletrônico de pacientes gratuito e full web. Pode ser acessado por qualquer dispositivo fixo ou móvel. Alem disso oferece milhares de informações úteis, como guidelines, links, protocolos, algoritmos de tratamento, notícias, medicamentos, etc… veja e comprove.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: