Archive for outubro \29\UTC 2010

Consulta de Vigilância

29 de outubro de 2010

Fábio Castro

Imagine as seguintes situações:

1 – Sou abordando pelo Agente Comunitário de Saúde (ACS) entre as consultas para imprimir um pedido de referência ou exame que foi autorizado, mas o paciente perdeu o pedido e sem o pedido não consegue consultar ou fazer o exame

2 – Durante a reunião de equipe é discutido um caso de um paciente e os dados são depois anotados no prontuário eletrônico

3 – Durante uma reunião do grupo operativo eu abro os prontuários para fazer anotações sobre as informações dadas durante o grupo.

O atendimento clínico consiste automaticamente na presença do paciente durante o atendimento, mas no PSF a consulta clínica no consultório é apenas uma parte do trabalho do médico que também inclui visitas domiciliares, reunião de equipe e grupos operativos, além do trabalho em equipe. Por atender um território delimitado junto com uma equipe, outros trabalhos também passam a fazer parte da rotina.

Um atendimento clínico automaticamente gera uma estatística relacionado com este atendimento, mas se eu entrar no prontuário sem a presença do paciente, como nos exemplos acima, também irá gerar uma estatística de atendimento clínico, mas não teve a presença do paciente.

Uma questão é medir os trabalhos que não são consulta clínica com a presença do paciente. Vou chamar estes trabalhos de Consulta de Vigilância (vem de vigilância em saúde). Partindo do princípio de que a qualidade do serviço seja proporcional a quantidade e consultas de vigilância, por que não medir estes trabalhos separadamente?

Considerando que os ACS são os membros mais numerosos da Equipe, o seu trabalho também deve ser o mais numeroso. Cada visita domiciliar pode ser considerado uma consulta de vigilância, apesar de ser geralmente feita com a presença de uma pessoa. Se informatizado com tecnologia móvel, como PDA ou smartphones, estas consultas dos ACS podem até ter os dados disponíveis no prontuário eletrônico.

Na minha equipe são cinco ACS além de duas auxiliares de enfermagem, uma enfermeira e o médico. No total são nove pessoas. A quantidade de consultas de vigilância é bem maior que a de consultas clínicas e não são consideradas.

Deixei até de citar o trabalho de outros profissionais como os responsáveis pela farmácia anotam em um campo apropriado um alerta citando que o paciente se recusou a pegar uma certa medicação, ou quando algum membro da equipe está analisando dados estatísticos da equipe, mesmo sem fazer anotações no prontuário eletrônico.

Anúncios

O Smartphone do IBGE

18 de outubro de 2010

Fábio Castro

Durante a coleta de dados do Censo Demográfico 2010, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) usou 150 mil dispositivos portáteis do smartphone modelo LG Sm@rt GM750. Cada unidade custou R$ 600 num contrato de R$ 90 milhões. Os aparelhos foram customizados para essa função. O sistema operacional é o Windows Mobile 6.5 além de ter conectividade Wi-Fi e sistema A-GPS. O acesso a Internet, SMS e telefonia foram bloqueados na fábrica. Foram instalados o aplicado para o Censo 2010 e o desenvolvimento de uma capa emborrachada, para aumentar a resistência a eventuais quedas durante o uso.

Depois que o formulário é preenchido, os dados são criptografados e salvos no smartphone. Uma vez por semana, o recenseador vai com seu dispositivo para uma das 7.000 centrais de dados, onde os aparelhos são sincronizados e os dados enviados pela internet, por uma VPN do IBGE.

O IBGE já usa 70 mil PDAs MIO 550B que junto com os novos smartphone serão usados pelos 190 mil recenseadores. O MIO foi desenvolvido para o Censo 2007 e foi extendida para o Censo Agropecuário, onde os dados serão inseridos no dispositivo que também contará com GPS para a realização do mapeamento rural. Apesar de mais pesado e trambolhudo, o MIO tem uma melhor usabilidade por ter uma tela bem maior. A capa de revestimento azul, padronizada, tem essa cor forte para evitar perdas. Sua superfície emborrachada e com ondulações laterais visa proporcionar boa empunhadura. O MIO tem ainda um segundo revestimento, interno, de borracha, com o intuito de vedar o aparelho e deixá-lo impermeável. E por fim, a canetinha stylus é presa ao aparelho por uma cordinha de nylon. Em 2007, graças à eliminação do papel, a contagem, tabulação e divulgação dos dados foi muito mais rápida. Com formulários escritos levava-se de 3 a 5 anos para fazer todo esse gigantesco trabalho.

A opção pelos smartphones foi feita em 2009 após um teste realizado com netbooks que foram reprovados. Eram leves, mas ficavam “pesados” ao longo do dia e devido ao reflexo na tela. Os netbooks atraíam mais a atenção de ladrões: em uma semana, durante os testes, cinco computadores foram roubados. Neste ano, dos 220 mil computadores de mão que estão nas ruas, o IBGE registrou extravio ou roubo de cerca de 100, o que é considerado pelo instituto uma taxa pequena.

Foi estudado o uso de PDA, mas logo os Smartphones entraram na lista. A tela do Smartphone foi considerada pequena, mas o iPad não estava disponível na época sendo que pode ser uma opção no futuro. O treinamento foi fácil devido a similaridade com o uso de um celular.

Os trabalhos devem terminar em 30 de outubro e o IBGE já está negociando como MEC para o uso dos aparelhos em projetos de inclusão digital como uso por alunos de escolas públicas com a instalação de aplicativos educacionais. Os computadores usados nos postos que fazem a coleta dos dados do censo também deverão ser encaminhados a escolas públicas. Também está sendo estudado o uso para a realização de entrevistas de programas de saúde domiciliar depois que a pesquisa acabar.

O Smartphone dos ACS

O trabalho dos Agentes Comunitários de Saúde (ACS) é um ótimo candidato para digitalização em dispositivos móveis com o descrito acima. A proteção e as informações sobre o tamanho da tela devem ser consideradas. Algumas cidades já estão usando PDAs para o cadastro das famílias. Agora o IBGE se torna uma boa fonte do hardware visto que os aparelhos serão doados. Idealmente o software deveria conversar com o Prontuário Eletrônico, mas seu uso ainda está engatinhando. O trabalho dos ACS e o dos recenseadores tem muito em comum com um podendo aproveitar as informações colhidas pelo outro, para planejar, executar e conferir.

Um modelo com GPS seria interessante para os ACS para mapear a área. Nem todos precisariam desta funcionalidade. Os ACS usariam apenas no cadastramento inicial. No futuro o custo deve facilitar o acesso.

Está sendo introduzido o uso de protocolos de classificação de risco, como o Manchester, nas equipes do PSF. Só a tela com touchscreen custa quase 3 mil reais. O mesmo trabalho poderia ser feito com um smartphone doado pelo IBGE sem precisar de um PC, impressora, mobiliario e local adequado.

O Especialista em Informática Médica

3 de outubro de 2010

Fábio Castro

A Sociedade Brasileira de Informática em Saúde (SBIS) está planejando a realização da primeira prova de Título de Especialista em Informática em Saúde (Certificação Profissional). A matéria da prova está no Programa da Prova de Conhecimento para Título de Especialista em Informática em Saúde (clique aqui para ver o programa) é bem aterrorizante para maioria dos médicos, assim como alguns itens devem ser aterrorizantes para quem trabalha na área de Tecnologia de Informação. O Título não é aceito pelo Conselho Federal de Medicina por ser multiprofissional podendo ser realizado por qualquer profissional da área de informática ou saúde. Eu uso o termo Informática Médica por entender e considerar apenas do ponto de vista médico. O curso superior de bioinformática também forma profissionais para trabalhar nas áreas biológicas como genoma.

A Informática em Saúde não é uma especialidade simples. Tem características que permitem que seja considerada como um campo de estudo próprio. A Informática Médica é a ciência ou campo da ciência relacionada com analise e disseminação de dados médicos através da aplicação das tecnologias de informação a vários aspectos da saúde e medicina. O Medinfo 2009 (1) cita que a Informática Médica é um campo da ciência complexa que integra teorias, metodologias de projeto e conhecimentos relevantes para garantir a “melhor prática” em vários domínios da cognição, computação, informação, organizacional e outros conhecimentos especializados quando aplicados sinergicamente para coletar, armazenar, organizar, manipular, usar e disseminar informações com bases clínicas e saúde.

Na prática o que um especialista em Informática Médica faz é ligar o conhecimento dos profissionais da Tecnologia da Informação com os da área Médica/Saúde. Os especialistas de Tecnologia de Informação geralmente reconhecem que não entendem nada de medicina e vice-versa. Na maioria dos projetos o que se faz é juntar os dois especialistas das duas áreas com o resultado não sendo muito bom. O especialista em Informática Médica teria a função de diminui os erros. Os projetos de Tecnologia em Informação em saúde são famosos pelos fracassos, mesmo com esforço para sucesso. A falha chega a 50-80%. Os programas geralmente tem sucesso parcial atingido alguns objetivos até falha geral sendo abandonado pelos profissionais. O projeto pode não levar a mudança na organização, ou surgiram resultados indesejáveis. O projeto pode funcionar em um contexto e falhar se implementado em outro (5).

Massad cita que é fundamental que esteja presente na equipe de desenvolvimento um profissional experiente com formação em informática médica ou irá gerar um produto ineficiente e não atende necessidade reais dos usuários” (2). O Medinfo 2009 também cita que os tentem a não usar o que não foi projetado por médicos sendo também um fator de sucesso para implementação(4).

Giulliano cita que uma equipe para desenvolver o projeto deveria ser liderada por um especialista que tivesse o conhecimento das diversas áreas envolvidas no projeto, informática e saúde principalmente, bem como deve possuir profundos conhecimentos sobre PEP e padronização. Sem esse perfil, o coordenador do projeto pode “pecar” em algum ponto ou deixar de conduzir o processo de forma a atingir os seus objetivos, ou mesmo, construir um sistema que não seja adequado a realidade dos usuários. Apesar disso, somente uma minoria dos projetos, 14,3%, são coordenados por um especialista em Informática Médica, profissional ideal para conduzir um projeto de PEP, visto que possui as qualidades comentadas acima. Talvez isso se deva ao fato do número restrito de profissionais especializados nesta área ou por ser a Informática Médica ainda muito jovem e, principalmente, pouco conhecida, tanto por profissionais de saúde como pelos informatas. Giulliano também cita que em uma pesquisa com uma equipe de desenvolvimento tem em média 16 pessoas (3). 

A minha experiência prática é na fase de teste de um projeto, como um Prontuário Eletrônico, é onde seria importante a presença de um médico com formação em Informática Médica pois, por questões éticas, um outro profissional teria limitação a uma consulta com o paciente, é que seria importante pois o médico não teria limitações.

No meu primeiro post no Blog (clique aqui para ir para o post) eu citei um exemplo simples de como um profissional preparado pode fazer muita diferença. No caso era o exemplo do módulo de atestado mostrando que o programa era até mais demorado que o preenchimento escrito, mas que podia ser aperfeiçoado para funcionar com apenas um clique do mouse e ainda com potencial para resolver outros problemas da prática médica. Na minha experiência e conversas com outros profissionais médicos as opiniões sobre um novo programa são bem simples como “legal”, “não gostei”, “não entendi” etc. A maioria não tem muito senso crítico para fazer comentários construtivos. 

Bibliografia

1- MEDINFO 2009 – Medical Informatics: Concepts, Methodologies, Tools, and Applications – Joseph Tan

2 – O prontuário eletrônico do paciente na assistência, informação e conhecimento médico / Editores Eduardo Massad. 2003.

3 – Desenvolvimento e Avaliação Tecnológica de um Sistema de Prontuário Eletrônico do Paciente, Baseado nos Paradigmas da World Wide Web e da Engenharia de Software  Autor: Claudio Giulliano Alves da Costa

4 – MEDINFO 2009 – Chapter 1.22 – Key Performance Indicators and Information Flow: The Cornerstones of Effective Knowledge Management for Managed Care  medical informatics

5- MEDINFO 2007 – Change Management and the Sustainability of Health ICT Projects