Archive for the ‘Cadastro’ Category

SUS BOOK – Prontuário Pessoal de Saúde

23 de março de 2011

Fábio Castro

O paciente é um dos recursos de saúde menos usados pelo sistema de saúde. Um paciente gasta apenas algumas horas por ano com o médico, mas gasta o dia inteiro, durante todo o ano, cuidando de si, seja tomando medicações, seguindo orientações, se alimentando corretamente (ou não), dormindo adequadamente, fazendo atividade física, controlando vícios etc. A participação do paciente está sempre presente na forma de tomada decisão, autocuidados e práticas colaborativas. Uma ferramenta de Informática Médica para apoiar o paciente a cuidar da sua própria saúde é o Prontuário Pessoal de Saúde.

Interface de um Prontuário Pessoal de Saúde do SUS

A interface mostrada abaixo é um exemplo de como seria um Prontuário Pessoal de Saúde do público. Foi chamado de SUSbook por ter ser uma cópia do Facebook (Clique na imagem para aumentar de tamanho).

Um Prontuário Pessoal de Saúde inicia com o paciente se cadastrando (editar meu perfil). O paciente indica seus dados demográficos. Depois de entrar os dados do seu endereço é possível saber qual é a sua nova equipe do Programa de Saúde da Família (PSF). Se o paciente estiver mudando de endereço poderá saber qual será a sua nova equipe do PSF. Os números em vermelhos é uma indicação da legenda abaixo.

1 – Na opção “minha equipe” estaria disponíveis o endereço onde a equipe atua, os profissionais da equipe (com foto) e dados sobre o funcionamento da equipe (agendamento, acolhimento, horários, serviços disponíveis etc). Pode saber pela foto quem será seu ACS que irá visitá-lo.

2 – Na opção “meus problemas de saúde” a lista de problemas pode ser criada pelo médico ou algum profissional de saúde. Preferivelmente deveria ser criada pelo prontuário eletrônico ou corre o risco de duplicar trabalhos e por isso ser até evitado. O paciente também teria como adicionar problemas de forma não estruturada ou estruturada (vícios, por exemplo). Os médicos dos serviços de urgência poderiam ter acesso fácil a estes módulos com senha especial.

Cada problema pode ser seguido de várias ferramentas para auxiliar o paciente a se autocuidar. As ferramentas estariam relacionadas com a educação do paciente como textos, fotos e vídeos.

3 – Na opção “meus medicamentos” ficam relacionados as medicações em uso pelo paciente ou que já foram usadas. Pode incluir alergias e efeitos colaterais. Dados de bulário e dicas para uso podem estar disponíveis. Novamente é uma lista de interesse para os serviços de urgência.

Dados mostrados em forma de gráfico, tabelas ou listas podem mudar muito estratégia de tomada de decisão do paciente. A prescrição de medicação é difícil para o paciente ler. Então o Prontuário Pessoal de Saúde pode mostrar as medicações de outra forma na tela em um formato diferente da prescrita para responder as necessidades administrativas da farmácia, mas em um formato fácil de ser entendido pelo paciente.

4 – Na opção “meus exames” podem ser listados os resultados de exames que o paciente já realizou. Trocar dados com o prontuário eletrônico seria ideal. Alguns exames realizados em casa poderiam ter seus dados disponibilizados para o médico como a glicemia capilar.

5 – Na opção “meus tratamentos” podem estar listados os tratamentos que o paciente realiza como fisioterapia, nutricionista, odontologia, psicólogo etc.

6 – As “minhas consultas” são encontros que o paciente teve com vários serviços de saúde. Em todos podem estar listados automaticamente com os dados entrados pelo prontuário eletrônico. Então o paciente pode entrar os dados pelo computador.

7 – A opção “minha saúde” estaria relacionada com a educação em saúde como o que deve saber e se informar, como dormir, se alimentar, atividade física e alimentação. Pode ser na forma de textos, imagens e vídeos.

Os médicos têm pouco tempo para explicar problemas e dar orientações aos pacientes. Então a consulta pode continuar pela internet sendo mais detalhada e até de forma repetitiva, em vários formatos como texto, imagem e vídeos. Pode ser interativo ou como uma cópia de material impresso. Também pode considerar o contexto local como favela, comunidade indígena, comunidade rural etc, ou o contexto pessoal como paciente idoso, grávida, adolescente etc. O conteúdo pode ser escrito por profissionais ou autoescrito. No caso de crianças pode as informações podem ser disponibilizadas na forma de jogos educativos.

8 – A opção “meus grupos” está mais relacionados com fóruns e grupos de discussão que o paciente pode entrar. O grupo está relacionado com alguma doença que o paciente tenha. O grupo pode ser local (equipe) ou de maior abrangência (até nacional). Estes grupos são muito úteis para o caso de doenças raras onde os participantes trocam idéias e informações.

9  e 10 – As opções “Estou com problema” e “urgência e emergência” estão relacionados com problemas agudos. O paciente passaria a ter acesso a informações sobre como proceder em caso de algum problema agudo. As informações podem ser por chat, email, mensagem e até indicar um telefone. Poderia ser uma escala de classificação de risco por sintomas preenchido pelo próprio paciente.

11 – A ferramenta “acessos” é um controle que o usuário pode ter sobre quem e quando seu prontuário pessoal foi acessado. É uma forma do próprio usuário fiscalizar e controlar o acesso. No caso dos profissionais da sua equipe a permissão de acesso é automática assim como a de médicos da urgência.

O “SUSbook” teria muita restrição de acesso, mas nada impede que tenha uma área pública para postar notícias curtas como o Twitter. Um exemplo da utilidade desta ferramenta seria o episódio recente do terremoto no Japão com o SUSbook sendo usado para conferir a situação do paciente. Como existe uma relação com o endereço então poderia ser criado busca automática com resposta automática para quem estiver procurando notícias dos parentes.

Gestão de Conteúdo

Na coluna central da interface ficaria o conteúdo dinâmico que pode ser atualizado. Como default são mostrados as notícias. No caso do nosso paciente está indicado que o médico da equipe está de férias e poderiam ser adicionadas mais informações sobre como proceder (item 12).

Os funcionários da recepção do centro de saúde vão gostar que os pacientes deixem de procurar a unidade para saber se os seus exames estão prontos ao pesquisarem na internet (item 13).

Um problema comum é o paciente ficar sem medicação e usar a falta de medicação como desculpa para conseguir uma consulta mais rápida. Novamente vai ter uma ferramenta para diminuir este problema (item 14).

A opção de escolher se vai poder ir ou não a uma consulta com o especialista pode viabilizar o conceito de Prontuário Pessoal de Saúde. Em algumas especialidades os pacientes chegam a faltar em 50% das consultas. A solução pode ser contratar mais especialistas ou criar processos que diminuam as faltas. Os pacientes vão gostar de remarcar a consulta para uma data mais apropriada, sem serem penalizados, ou indicar que o problema foi resolvido ou não precisam mais (item 15).

O paciente teria controle sobre quem acessou seu Prontuário Pessoal de Saúde. Pode ter a opção de denunciar sendo que quem acessa prontuários estaria sendo suspeito de abusos (item 16).

O Prontuário Pessoal de Saúde também poderia ter ferramentas para viabilizar o pagamento por desempenho. Um profissional pode simplesmente entrar o nome de um paciente e simular uma consulta. Então o paciente passa a ser uma fonte para indicar uma possível fraude. Erros repetitivos seriam bem sugestivos de abuso (item 17).

Anúncios

Adicionei uma ferramenta para entrada rápida de dados como a glicemia capilar (item 18). Aparelhos portáteis como o glicosímetro já estão sendo distribuídos a população. O acesso a esfigmomanômetros automatizados pela população também está ocorrendo. Os dados poderiam ser disponibilizados diretamente no Prontuário Eletrônico e criar alertas se os dados estiverem muito alterados. Podem até sugerir alterações na medicação como ajuste de dose de insulina ou caso ocorra hipoglicemia.

O monitoramento remoto é a captura de dados paciente vitais fora sistema saúde. Mudanças nas condições do paciente sempre ocorrem entre os encontros e podem ser detectados medindo alguns parâmetros. Se tratados rapidamente podem melhorar as condições do paciente. Funciona bem para o gerenciamento e pouco para o diagnóstico e com doença crônicas.

Existem vários tipos de anúncio que podem ser úteis para o paciente (item 19). Alguns são locais como os serviços disponíveis para a população como os citados na interface.

Riscos

A charge abaixo é uma boa indicação que o Prontuário Pessoal de Saúde pode ter sucesso.

As mídias sociais são muito eficientes em criar vício nos seus usuários. Por outro lado o PHI não é bem uma mídia social apesar de ser bem parecido. O paciente pode não aceitar por ver risco da perda de privacidade. Pode ter dificuldade para entender o funcionamento. No caso do SUS a limitação é a dificuldade de acesso da população e até o analfabetismo. O acesso a computadores e internet está se tornando cada vez maior com a redução do custo do hardware.

Test Drive do ALERT – Parte 1

28 de dezembro de 2010

Fábio Castro

Tive a oportunidade de testar o prontuário eletrônico Alert criado por uma empresa Portuguesa. Novamente estou dando a minha opinião como um médico do Programa de Saúde da Família.

O Alert foi criado para hospitais e a equipe de desenvolvimento acredita que ser funcionar bem para um hospital deve funcionar bem em qualquer situação. Esta abordagem está relacionada com o custo de criar vários programas para cada situação como hospital, especialidades, pronto atendimento etc.

Um critério de  julgamento é ser fácil de usar e de aprender a usar. O Alert tem muitas telas, mas todas em uma tela de ajuda o que acaba facilitando. O problema é a demora para entender tudo. Como são muitas telas o teste será bem resumido.

A interface das telas está relacionado com o uso da tecnologia touchscreen. Eu usei só o mouse então não foi possível analisar usando o dedo. A interface usa muitos ícones ao invés de campos nomeados. No começo é estranho mas se acostuma. É só passar o mouse sobre o ícone que mostra o que significa. Senti falta de teclas de atalho provavelmente relacionado com o uso de tela touchscreen (clique na imagem para ampliar).

Cadastro do Paciente

A primeira coisa a se fazer em uma Equipe de Saúde da Família é cadastrar os paciente no processo de territorialização. O trabalho não é só anotar os dados do paciente com nome, data nascimento, nome do pai e mãe, etc. O trabalho também implica em cadastrar as ruas, domicílios, quarteirões, famílias, delimitar a microárea e área de abrangência. Os dados serão necessários para pesquisas estatísticas e levantamento de dados. O processo é até mais complexo tendo que identificar barreiras e recursos existentes como escola e igreja.

Interessa para os membros da equipe saber se o paciente pertence ou não a área. Será um filtro para várias ações desde o agendamento, facilitando a busca do paciente, até na analise de dados estatísticos. Por exemplo, se o protocolo cita que os pacientes diabéticos em uso de insulina tem que consultar pelo menos quatro vezes por ano então eu faço a busca pelos pacientes da área, mostrando as consultas com o médico da equipe e especialistas, ao invés de fazer a busca dos pacientes do médico da equipe que não irá mostrar as consultas com o especialista.

A screen abaixo é do cadastro do endereço. O dado não é estruturado o que dificultará estudos estatísticos. As ruas deveriam ser cadastradas antes do atendimento pelos Agentes Comunitários, ou mesmo durante o cadastramento dos pacientes na unidade com a opção de “novo endereço” ou “novo domicilio” (Clique para aumentar o tamanho).

A interface abaixo é de uma entrada de dados estruturada (Clique para aumentar o tamanho).

Um dado interessante é que eu atendo pacientes de outras áreas que por vários motivos não querem consultar em outra equipe. Então eu atendo pacientes fora de área o que significa que tem que ser considerados também na minha estatística e até de outra equipe.

Durante o atendimento alguns moradores mais antigos do local costumam informar dados da história do local. Então o tempo que o paciente mora no local pode ser um dado interessante. Pode ser fonte para virar um alerta para o médico abordar o paciente sobre esta questão no momento apropriado.

O cadastro também inclui a equipe, local que está instalada ou unidade, e os profissionais da equipe. O Alert tem o cadastro de especialista e local de atendimento (sala).

Agendamento

Depois do cadastramento vem o agendamento para uma consulta. A interface de agenda parece bem completo. É fácil ver os pacientes consultados nos dias anteriores e a serem consultados, quantos serão consultados no dia, quantos falta para serem consultados e outras tarefas agendadas (medicação, exames etc) para outras áreas do serviço.

A lista de espera tem a foto do paciente. Deve ser interessante chegar na sala de esperar, chamar o próximo paciente e já saber quem é pelo rosto. A interface abaixo foi editada e adicionada uma foto para demonstração. Também coloquei o menu para indicar o que foi feito ou será feito (Clique para aumentar o tamanho).

Na interface abaixo está uma interface com calendário. Os campos mostram o número de consultas atendidas e agendadas. No dia 10 está marcado 2/2. A agenda tem a capacidade de reagendar consulta em bloco tendo que registrar que notificou o paciente e o motivo (Clique para aumentar o tamanho).

Cabeçalho

Na parte superior da interface fica o cabeçalho com o nome do paciente, foto do paciente (a direita), foto do profissional atendendo (a esquerda) e outros dados de identificação. O cabeçalho também pode mostrar dados clínicos como historia do paciente, vícios, alergias, grupo sanguíneos, doenças relevantes e anotações. Completei o quadro pois só aparece a legenda se os campos estiverem preenchidos (Clique para aumentar o tamanho).

A presença de dados clínicos no cabeçalho poderia ser facilmente eliminada se o software trabalhasse com uma lista de  problemas que apareceria o tempo todo.

O que senti falta, já citando o cadastro, é a equipe do PSF a que pertence o paciente e o endereço. Existem situações em que é interessante para o trabalho no PSF. Um exemplo é em época de Dengue onde os casos se concentram em algumas regiões e não está disseminada igualmente.

Imprimindo

A ferramenta de impressão fica no canto inferior esquerdo. Toda vez que se imprime alguma coisa é necessário usar a senha. Pode ser uma medida de segurança, mas atrasa o trabalho. Não consegui imprimir nada pois o programa travava. O problema podia estar relacionado como mecanismo de senha (biometria?) ou por ser uma versão de desenvolvimento do Alert (Clique para aumentar o tamanho).

A ferramenta tem opções para gerar relatórios como o episódio completo, informações para o paciente, informações para outro médico e prontuário clínico. É possível ver o que já foi impresso, quem imprimiu, quando e reimprimir.
Eu já recebei paciente com encaminhamento de hospital feito pelo Alert. A impressão é bem feita, mas reparei que gasta muita tinta, com barras coloridas e inclui a foto do paciente. Para o SUS deveria ter a opção de impressão bem simples para economizar.

Bibliografia

Abordagem Comunitária pelo MFC – Programa de Atualização em Medicina de Família e Comunidade – PROMEF