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Alert + Fiocruz = Skynet

25 de agosto de 2011

O presente da Alerta para a Fiocruz é acabar com o maior valor da instituição: o nome. Qualquer que seja a desculpa o valor está hiperfaturado.

Fonte: http://www.baguete.com.br/noticias/software/24/08/2011/fiocruz-r-365-milhoes-sem-licitacao

“A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), entidade de pesquisa ligada ao Ministério da Saúde, comprou um sistema de gestão de dados da portuguesa Alert por R$ 365 milhões.

Publicada no Diário Oficial na segunda-feira, 08, a compra foi feita sem licitação, informa a Folha Online.

O contrato de cinco anos prevê transferência de tecnologia e visa integrar dados da redepública de saúde e criar prontuários eletrônicos para os pacientes do SUS, que poderão ser acessados pela internet.

A dispensa de licitação chama atenção quando o setor de software para saúde possui grandes competidores como MV Sistemas e Totvs. Outro possível concorrente seria a estatal de processamento de dados do SUS, a Datasus.

O valor é inédito no setor de softwares para a saúde, segundo afirmou à Folha o presidente da Sociedade Brasileira de Informática em Saúde, Claudio Giulliano.

O valor do contrato é três vezes maior que o faturamento da Alert em 2010, que segundo o site da empresa foi de 46,9 milhões de euros, R$ 108 milhões pela cotação de hoje. [A MV faturou R$ 84 milhões em 2010 e projeta R$ 126 milhões para 2011].

A implementação supera em valor ao projeto do sistema de gestão Oracle para a Vale, um dos maiores já feito no país e orçado em US$ 55 milhões segundo reportagens publicadas à época, em 2002.

O vice-presidente de Gestão e Desenvolvimento Institucional da Fiocruz, Pedro Barbosa, disse à Folha que a Alert foi escolhida por requisitos técnicos e ter a certificação internacional IHE (Integrating the Healthcare Enterprise).

A Alert, que tem filial em Belo Horizonte e em 2009 divulgou atender 30 hospitais brasileiros, seria a única empresa do segmento operando no país a possuir a certificação.

Uma consulta ao site da IHE revela que 298 fornecedores de TI em todo mundo tem a certificação, incluindo nomes de peso como Philips Healthcare, Software AG, Toshiba Medical Systems, Vocollect Healthcare Systems, Informatica.

Participam ainda da IHE 58 associações de profissionais de saúde, 31 organizações de educação e pesquisa em saúde, nove associações comerciais ligadas a saúde e 16 agências de governo e parcerias público privadas. A grande maioria está sediada nos Estados Unidos e Europa.

Não há nenhuma instituição brasileira na lista, que pode ser conferida pelo link relacionado abaixo.

Menos de um mês antes da públicação, Augusto Cesar Gadelha Vieira, diretor do departamento de Informática do Datasus, e Paulo Ernani Gadelha Vieira, presidente da Fiocruz, viajaram a Portugal para conhecer os serviços da empresa, aponta a Folha. ”

 

Comentários:

– O valor do contrato permite contratar dezenas de empresas e ver qual é a melhor (ou a menos ruim)

– Um dos maiores problemas da APS é a grande demanda e um Software lento para preencher como o Alert só complica mais as coisas. As mudanças são tantas que provavelmente terá que ser refeito e é a alegação para contratar o sistema ao invés de iniciar o desenvolvimento de um (mas que já vem sendo estudada há vários anos).

– O valor do contrato permite desenvolver outros sistemas como um Prontuário Pessoal de Saúde, sistemas móveis para os Agentes Comunitários, Telemedicina, Programa de Educação Permanente e Gestão do Conhecimento. Então a solução é ainda parcial.

– O objetivo é um sistema único e a ideia acabou de fracassar no Reino Unido.

– A solução será provisória perdendo a oportunidade de investir em pesquisa e desenvolvimento.

– O anúncio pegou todos de surpresa indicando que não foi um processo transparente.

O Fracasso/Sucesso de um Prontuário Eletrônico

11 de agosto de 2011

Uma noticia recente cita que a Reino Unido está cancelando um mega programa de Prontuário Eletrônico que ligaria todo o sistema de saúde do país. O governo já gastou bilhões de Libras no projeto. O objetivo era criar um banco de dados único de todos os pacientes. Agora cada serviço poderá escolher qual sistema irá usar. O artigo cita problemas de liderança e não ter consultado os profissionais que irão usar o sistema. Veja os artigos aqui e aqui.

A notícia é interessante para o Brasil pois o Ministério da Saúde está iniciando projetos parecidos como fornecer um Prontuário Eletrônico gratuito para os municípios (ver post anterior).

Particularmente o exemplo britânico me faz lembrar um caso contado por uma médica sobre um Prontuário Eletrônico que foi implantado em um hospital e foi odiado desde o porteiro até a diretoria. O sistema era muito demorado de usar e causava uma cascata de atrasos no atendimento. Há três dias, em uma reunião no meu trabalho, fiquei sabendo de uma reunião entre as gerentes e o secretário de saúde onde foi uma reclamação geral sobre o Prontuário Eletrônico. A informatização em geral pois era incompatível com as novas propostas de metas do governo. O secretário de saúde não estava sabendo de nada.

A literatura sobre informática médica (ou informática em saúde) tem muitos exemplos e informações sobre sucessos e fracassos de prontuários eletrônicos. No inicio da década de 90 o Partners HealthCare desenvolveu um dos primeiros Prontuários Eletrônicos para o Brigham and Women’s Hospital (BWH). Os médicos queixaram muito no inicio e demorou vários anos para entrar em operação. O sistema foi implantado em outros hospitais também com problemas. A “mudança de cultura” era um dos problemas principais. Por fim um médico atuou como chefe de projeto, sistemas pilotos foram usados para testes, e a implementação foi em fases. Todo o hospital acabou ajudando na implementação. A equipe de apoio estava sempre presente para ajudar os médicos. O trabalho foi tido como uma iniciativa dos médicos.

Em 2002, o Cedars-Sinai Medical Center cancelou o Prontuário Eletrônico que estava desenvolvendo. Um pequeno grupo de médicos protestou contra o uso obrigatório do sistema e reclamaram da demora no uso do sistema. O sistema foi cancelado após poucos meses de uso. As causas verdadeiras do fracasso não foram determinadas com certeza, podendo incluir falhas de comunicação entre a diretoria e os médicos (1).

Uma olhada em vários artigos que citam os fatores de sucesso mostra que as barreiras primárias para adoção de um Prontuário Eletrônico são os custos e resistência dos médicos. Os fatores podem ser divididos em liderança, infra-estrutura e fatores culturais.

Vários estudos mostram que um programa e sucesso deve ser integrado na rotina diária dos médicos e usuários. A usabilidade e estilo da interface é importante pois para o usuário a interface é o sistema. A interface deve ser clara, sem detalhes desnecessários e interação consistente. Menus, gráficos e cores consistentes podem ajudar a ficar atrativo e simples de aprende e usar.

A lista de fatores de sucesso é grande:

– Cultivar a aceitação dos usuários como consultar os usuários antes de implementar e participação de todos nas decisões
– Pesquisar e conhecer experiências semelhantes de desenvolvimento
– Consenso sobre a necessidade de um sistema e qual é o melhor
– Detalhar as especificações
– Formação de um consenso sobre uma estratégia para os sistemas de informação ou um plano de migração e implementação
– Priorização e direção da equipe de gerenciamento
– Líder de projeto de tecnologia de informação e equipe competentes
– Sistema intuitivo e testado que pode ser usado com pouco treino.
– Os testes devem mostrar que o sistema funciona como projetado e produz o resultado esperado
– Funciona melhor que o procedimento que substituiu
– Ter um bom potencial de desenvolvimento
– Demonstração do custo-benefício do prontuário eletrônico, mostrando que vai melhorar o serviço e a prática da medicina
– Treinar os usuários e desenvolvedores
– Educação e demonstração dos benefícios dos prontuáris eletrônico na melhoria do atendimento ao paciente
– Trabalhar junto a organizações de padronização ou associações de classe para melhorar e expandir os padrões

A Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC) iniciou trabalhos sobre o assunto, ainda engatinhando. Se der certo poderá ser fornecido um certificado para prontuários eletrônicos considerados adequados para atuar na Atenção Primária.

Bibliografia:

1 – Person-Centered Health Records – Toward HealthePeople – CAP 6 Human Factors: Changing Systems, Changing Behaviors – Marion J. Ball and Judith V. Douglas

2 – Biomedical Informatics – Computer Applications in Health Care and Biomedicine – Edward H. Shortliffe (2006)

3 – Medical Informatics – 2009

4 – The Computer-based Patient Record – Dr. Jan H. van Bemmel

5 – Costs and benefits of health information technology: an updated systematic review – Paul G Shekelle, Caroline L Goldzweig, Southern California Evidence-based Practice Centre, RAND Corporation, 2009

6 – O Prontuário Eletrônico do Paciente na Assistência, Informação e Conhecimento Médico. Massad, Eduardo(ed); Marin, Heimar de Fatima(ed); Azevedo Neto, Raymundo Soares de(ed). 2003.

7 – Desenvolvimento e Avaliação Tecnológica de um Sistema de Prontuário Eletrônico do Paciente, Baseado nos Paradigmas da World Wide Web e da Engenharia de Software – Claudio Giulliano Alves da Costa